Denúncia/Desabafo – Independência ou Morte

Muito se fala sobre a qualidade da saúde pública. Muito se divulga na mídia, com exposição histriônica, quando algum cidadão tem problemas com o serviço de saúde pública.

Curioso é que não se vê a mídia, entidades de classe e até mesmo a população, preocupada com a saúde dos profissionais da saúde.

Quando algum cidadão ou cidadã procura um serviço de saúde pública, não está minimamente preocupado se o profissional que vai atendê-lo, tem qualificação, está trabalhando sob as melhores condições para prestar o melhor atendimento.

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Este post é um desabafo, posto que as denúncias feitas por mim e por outros profissionais de saúde, principalmente mas não exclusivamente, a saúde pública, não tem surtido o efeito desejado e fica parecendo que nossos problemas e dificuldades em ajudar ao próximo, é desculpa para o mau serviço e atendimento propagado pela mídia.

Se você preocupa-se com a saúde de quem te atende nos serviços públicos de saúde e até mesmo em hospitais particulares que, em muitos casos tratam seus “conveniados” de maneira pior do que são tratados no serviço de saúde pública, peço que leia este longo post, peço que divulgue esta denúncia/desabafo e ajude-nos a ajudar a todos que precisam dos serviços de saúde.

Acredito que um resumo da minha história de vida possa ajudá-los a entender um dos motivos da nossa saúde pública ter muitos problemas “invisíveis”.

Sou Lucia Helena Vitória, profissional de enfermagem, com atuação em áreas como de Atenção Primária  à Saúde, na condição de servidora pública municipal. Nesta atividade profissional, não temos patrão e as chefias nem sempre são qualificadas ou sabem avaliar o que fazemos.

Realizo, muitas vezes, coleta de material biológico sob pressão e cuidando para que os pacientes sofram o menos possível; fazemos administração de medicamentos sob prescrição médica que algumas vezes pacientes e médico não entendem; Aferimos sinais vitais que podem indicar enfermidades escondidas; temos a preocupação de dispensar medicamentos em farmácias públicas para aqueles que não podem adquirir remédios nem sempre em conta.

Ainda na Atenção Primária, descobri o “Universo da Imunização”, assunto que  aguçou a minha busca por aprimorar a compreensão desse processo de troca entre seres humanos por uma saúde melhor para todos.

Me apaixonei pelo tratamento de feridas. Pode parecer estranho, mas se não existirem profissionais que gostem de algumas atividades na saúde, muitas vidas se perdem. Fazer atendimento em ambientes assépticos e bonitinhos, é fácil, sei do que estou falando. Foi neste meio de tratamento de feridas que estou tendo enormes alegrias em ver recuperações fantásticas e que me levou ao interesse de desenvolver este  espaço virtual,imaginando que as discussões e depoimentos fariam avançar uma consciência coletiva sobre alguns problemas de fácil solução. Acredito, sempre, que o conhecimento é construído de forma interativa num processo dinâmico e contínuo.

Além destas atividades associadas ao meu trabalho na Prefeitura de Belo Horizonte, também sou servidora pública estadual, com atuação em uma área mais “espinhosa”, o Centro de Terapia Intensiva(CTI), de umhospital que presta assistência a pacientes graves, até mesmo terminais. Um trabalho necessário para quase todas as categorias de profissionais da saúde. Dupla jornada, muitas vezes em função da baixa remuneração, é o que nos resta, sem perder o passo e com os pacientes e seus familiares sem se preocupar se nós, profissionais da saúde, estamos bem de saúde para cuidar de seus queridos entes.

Sempre busquei executar meu trabalho com responsabilidade, compromisso , com alto senso humanitário, dedicação e respeito. Buscando melhoria contínua na minha técnica e no meu conhecimento. É a profissão que escolhi, sou feliz em dizer que há tanto tempo exerço e faço por que gosto, me faz sentir digna e útil.

Mas, como diria o poeta, nem tudo são flores, especialmente na saúde pública que atuo. Aqui cabe um espaço para dizer que trabalhei em grandes hospitais privados e beneficentes e a coisa não costuma ser muito melhor. Só aqueles que tem dinheiro para pagar como PARTICULAR terão o melhor. Nem os melhores planos de saúde garantem nada quando se precisa de verdade.

Aqui começam minhas tristezas. A enfermagem em Minas Gerais não tem um piso salarial, obrigando assim, o trabalhador deste segmento a acumular trabalhos, a se submeter a políticas de progressão e reconhecimento feitas por burocratas que nunca usaram o sistema ou pisaram num centro de saúde. Ficamos sobrecarregadas(os) em longas e exaustivas jornadas de trabalho.

O prejuízo para a saúde daqueles que cuidam da SUA saúde é inevitável. O cansaço extremo, as doenças por esforços repetitivos, má alimentação, noites de sono perdidas, aumento do nível de stress, pode levar este trabalhador a uma maior margem de erro. Não quero aqui justificar os erros de enfermagem que já aconteceram e ainda acontecerão, até que a tecnologia nos ajude, mas em nenhum momento, os noticiários se preocupam com a condição que este trabalhador está exercendo sua função.

Ao paciente, fica, infelizmente, o prejuízo que pode ser ainda pior. Este prejuízo é escondido no tipo de saúde que prevalece no país. Temos o domínio dos laboratórios e planos de saúde que promovem a saúde “curativa”, a saúde preventiva é relegada a um plano inferior, mesmo que seus  resultados sejam cristalinos.  E nós trabalhadores do setor de saúde, não temos nem a atenção como trabalhadores de Muitas categorias com exames periódicos, apoio nos tratamentos e algumas preocupações que os trabalhadores dasaúde deveriam ter, obrigatoriamente.

Ouso utilizar do meu caso, em especial, para mostrar o descaso com que o Poder Público trata o trabalhador da saúde. Como disse, tenho  dois vínculos, um deles há quase 18 anos, e somente passei por um exame periódico uma única vez. No outro, trabalho desde 2007 e nunca passei por um exame periódico. É concebível que as pessoas que cuidam da saúde de quase uma população inteira fiquem sem exames periódicos para avaliar sua condição de trabalho? Determinado Hospital particular, no estado do Paraná, manteve uma profissional de saúde que começou a praticar atos inadmissíveis para quem cuida da saúde dos outros. Erro de quem?

Quando iniciamos num emprego querem saber tudo sobre nossa saúde, história familiar, vida pregressa, exames psicológicos, exames laboratoriais, de imagens e afins. Chegam até exigir exame de hímen intacto como em dois concursos públicos recentes. Mas a população e a mídia não se importam com isto. .Querem que estejamos em plena saúde, com vigor, prontas(os) para tudo que der e vier… e depois?

Hoje sofro com uma terrível dor na coluna, tenho espondilolistese, artrose na coluna, artrose no joelho. Se estava sadia e sem problemas na admissão no Serviço Público de Saúde e não sofri acidentes graves que justificassem estes problemas, quem se responsabiliza pela saúde ocupacional dos profissionais de saúde pública? Quem se preocupa conosco?

Na Constituição Federal, diz, de maneira geral, que o empregador deve zelar pela saúde do trabalhador a seu serviço. Quanto isto não é cumprido nem pelas estrutura de Governo, como este Governo pode cobrar da iniciativa privada? Será que tem interesse de cobrar da iniciativa privada pela saúde dos trabalhadores?

Tenho realizado um trabalho hercúleo e quixotesco, cobrar das instituições que trabalho, melhorias no cuidado com a saúde do trabalhador da saúde. Não sou ouvida. Enviei mensagens para os sindicatos que sou filiada, ninguém responde.

Acta Paulista de Enfermagem
Fonte: Acta Paulista de Enfermagem

Acredito que aqueles que leram este meu depoimento até aqui podem me ajudar, queremos ter visibilidade não somente da mídia e dos empregadores, queremos o apoio do cidadão de bem que precisa ou pode precisar usar  Serviço Público de Saúde. Precisamos de você leitor. Só de você indicar a leitura deste longo post para outros leitores, estaremos formando uma consciência críticamaior sobre esta situação que aflige a mim outros trabalhadores.

Precisamos que todos compreendam que se um Servidor da Saúde Pública precisa ter boas condições para cuidar da saúde de outras pessoas. Se este profissional não está bem, como ele pode atender um paciente sentindo dor? Temos sofrido muito, especialmente com a injustiça e compreensão de chefias e com a mídia que explora momentos de sofrimento e querem responsabilizar a nós, que damos a cara, o tempo todo, para ajudar aqueles que sentem dor.

Agradeço a todos que leram a minha opinião, se tiver uma palavra, concordando, discordando, sugerindo, coloque-a aqui. E ficarei agradecida por ampliar a discussão até com outros profissionais da saúde. Este espaço foi criado para isto.

2 comentários sobre “Denúncia/Desabafo – Independência ou Morte

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